Trezentos e sessenta e cinco, São os dias e algumas horas, Numa incerteza em que fico E sem tempo para demoras... E a que mais alguns acertos, Tais dias e que em tal afinco, Dalguns segundos, desertos, Guardados por outro trinco... Chegando, assim, novo ano, Pelas ruas duma amargura, Quase sempre num engano, À tua vida e mais que dura, Tantas, que nem as decoras E tantos dias que as viveste, Sem um futuro de melhoras E esperança que já perdeste... Mais um e de tantas ilusões, Esquecendo tal que passou, Cheio de maiores confusões, Demais e tempo que durou; Agora, vivamos a esperança E de quanto, de novo, advir, Esquecendo pior lembrança, Seguindo em frente e sorrir, Pois que vida é movimento, Sonhos, passarola frenética, Fugindo aos frios e do vento E numa competição atlética... Promessas e mais certinho, Eis o pódio que nos espera, No silêncio e de mansinho, Rolando, como uma esfera. Conto as metas que faltam, À esperança do que quero, Suturo feridas, que matam, Deste ano e em desespero... Promessas, cantos e ventos, São o que tal nos oferecem, Vazias palavras e tormentos, De quanto nos adormecem...
Estar morto, é estar vivo e não saber viver, É ter pão sobre a mesa e não saber comer E sede, numa fonte, sem água para beber... Ter os pés velozes, sem vontade de correr.
Estar vivo, é estar morto e compreendido, É perder-se no tempo e ficar reconhecido, Perder uma luta, sem nunca estar vencido, Estar bem acordado, estando adormecido...
Ai, estes fantasmas e que me perseguem E comigo, em noites calmas, adormecem E sem saberem de quanto me arrefecem!
Ai, tais anjos, que a meu lado se deitam, Acariciando meus cabelos e me beijam, Enquanto, ao luar, demónios espreitam!
Ai, Portugal, Portugal, Tão só te vais sentindo, Enquanto teu povo, surreal, No conforme e dormindo, Se entrega às suas sortes, Por quatro cantos do mundo, Estrangulado por garrotes E cada vez mais no fundo! ... Tal destino não merecias, Pois que tua história é glória E vives, agora, melancolias, No escuro de outra história. Tudo e que foi tal passado, Vai sendo um esquecimento, Um futuro mal tratado E por ruas do lamento; Neste período, tão letárgico, Liberta-te desse destino, Antes que seja mais trágico E tanto que ainda és menino… Não te deixes afundar, Escolhe as armas, teus guerreiros E com garra para lutar, Escorraçando estes matreiros. Que sejas luz no firmamento, Orgulho dos filhos da Terra, Paraíso com sustento E paz por entre qual guerra… Não te esqueças de Henriques, Tal homem que te fez nascer, Que neste canto nunca fiques, Num espasmo de morrer, Lembrando-te dos Conjurados E que no silêncio lutaram, Por teu povo glorificados E no quanto se entregaram... Que sejas agricultura de Dinis, Poesia e sangue de Camões, O que Álvares Pereira quis E nunca covil de ladrões!...
Sigo o voo de algumas, minhas palavras, Simples observações e que não contam, Ou que ninguém gosta, por tão ásperas, Ao que, na minha mente, se encontram.
E, se bem analisadas, demais modestas, Para a razão e luta, a que se propõem, Mas mais não sei e não querendo festas, Sendo rimas e que, no âmago, corroem.
Nesse voo, espalham-se por tão longe E enquanto se esfumam, ou esvoaçam, Simples meditações dum mero monge, Perdidas na oração que não alcançam.
Palavras que não deixam algum rasto, De tão ténue que se espalha tal fumo, Portanto e se cavalo alado não monto, Segui-las e sem asas, a tal não assumo.
Deixo-as seguir, numa calma viagem, Deixando que se espalhem, de soltas, Livres e que deixem de ser miragem, Para quem tanto sofre de suas voltas.
São tais e minhas palavras, que voam, Sem nunca saberem por que destino, Vibrando esperança por onde andam E como quaisquer sonhos de menino...
São palavras, tolas, secas, mas nobres, Oferecendo mais que meras esmolas, A quantos que sofrem, de tão pobres E carregando só lágrimas nas sacolas...
Fogem-me as palavras, para a verdade E enquanto retrocesso no pensamento, Quantas vezes presas nalguma saudade, De melhores alturas e outro momento...
Quantas vezes tendo medo do que digo E sem a verdadeira noção dessa firmeza, Palavras soltas, da boca de quem amigo E outras tantas soletradas numa rudeza...
Mais as que ferem, como pontas de aço, Que aquelas cobertas de certa melodia, Talvez que façam parte do desembaraço E força de quanto me exprimo dia-a-dia...
Como sei e na certeza de quantas delas, De tão sinceras, que revolvem opiniões, Feitas por encomenda pras piores feras E demais entraves a portas de ladrões...
São revoltas, nas mais revoltas criadas, Uma dádiva de luz a tantos miseráveis E esquecidos, nessas vidas malfadadas, Enquanto alguns arrotam e saudáveis...
Serão as minhas rudes palavras, cruas, Que uns odeiam e os demais adoram... Para ti, que és fraco, estas serão tuas E serão minhas.. para os que choram!
Uivam os ventos, como lobos, À solta, pelos espaços da serra, Enquanto, no vale, certos bobos, Não percebem o que tal encerra... Mortos-vivos, que olham, cegos, Sem entenderem quem lhes berra, Obcecados, nos mais ridículos egos E que são parte de outra guerra... Pobres dos que mais não vêem E outro tanto não querem crer, Por mais conselhos que lhes dêem, Morrendo num quanto sofrer... Uivam os lobos, que os chamam E, por tão famintos como eles, Pedaços de comida reclamam, Para que se encham tais peles... E quão esfomeados que andam, De mais pobres e demais que são, Já sendo mais os que choram, Aos que acreditam na razão... Erguem-se as mãos ao alto, Numa esperança de salvação, À beira do abismo e do salto E um aperto no coração... Sem força, alma, qual calor, Pelas estradas deste mundo, Frios, pobres e sem amor, Abandonados e bem no fundo... Uivam os ventos, às suas dores, Que mais não podem dar E já se sentem rumores, De outra guerra a começar... E lá descem outros facínoras, A lobos e uivos muito piores, Dos quais fogem as víboras E que são santos os malfeitores... Pois que aldrabam e matam, Sem nunca darem nas vistas E sem pena de quem esfolam, Mesmo dos quais são visitas... Calam-se os ventos, já sem forças, Recolhem-se os lobos ao covil, Não vá o Diabo partir-lhes as norças, Ou comer-lhes algum pernil... Acolhem-se os miseráveis, em lágrimas, Quedos, sem argumentos e acções, No maior silêncio das palavras E medo de tantos ladrões...